Há 5 anos atrás denunciei meu tio pedófilo
O TEXTO É MUITO PESADO PRA QUEM TEM TRAUMAS COM ABUSO OU PRA QUALQUER PESSOA NORMAL , MAS SE VOCÊ SABE QUE O ASSUNTO É DELICADO PRA VOCÊ E TE DESPERTA GATILHOS, NÃO LEIA.
Não me arrependo do que fiz, estou certa de que fiz justiça por mim, minha versão de 11 anos, e pelas outras crianças que foram abusadas por ele também, sabe-se lá quantas. Mas as consequências foram enormes, não foi fácil e 5 anos depois, ainda não está sendo fácil. Vou explicar rapidamente o principio, para que o que está acontecendo agora faça mais sentido. Convivi com meu tio na casa dos meus avós, quando morei lá tinha 11 anos, me mudei pois meus avós moravam mais perto da nova escola em que havia sido matriculada. Morei lá por 1 ano inteiro, e os abusos começaram, foram escalonando e duraram meses, todas as semanas, quase todos os dias. Depois que voltei pra casa, internalizei. Ele dizia que era nosso segredo. E eu acreditava. Só tive coragem de contar pra alguém (meu melhor amigo até hoje) aos 13 anos, na escola. Depois disso, não voltei muito mais sobre o assunto, apenas com alguns amigos íntimos mas apenas uma vez na vida para nunca mais voltar no assunto novamente. Era como se fosse um desabafo, era uma forma de contar a verdade sem grandes consequências, mas aliviava tirar algumas gramas desse peso ao falar sobre. Desenvolvi ansiedade, depressão e blah blah blah.
Depois de todos esses anos, em 2017, fui passar o natal com meus avós (que haviam se mudado para Minas Gerais junto com meu tio). Conheci diversos familiares, pessoas que jamais tinha visto, primos de São Paulo, tias-avós, tios-avôs, primos e mais primos, e eu estava tão alegre por conhecer toda essa gente que são parentes meus e que eu sequer sabia da existência. E em rever minhas primas, tenho duas primas, filhas desse tio, único irmão do meu pai. Na véspera, horas antes da ceia, eu estava jogando guitarhero com as minhas primas e mais duas meninas, primas nossas também, mas de outro grau. Eu a mais velha com 20 anos na época, e as outras pirralhas entre 10 e 13 anos. Quando vou pro canto de deixo elas jogando sozinha, meu tio se aproxima, e aponta para as meninas jogando e diz "minhas novas alunas." e ri. Eu entendi o que ele quis dizer, porque o que ele dizia pra mim, era que estava me ensinando. Minha garganta fechou na hora, um choro preso. Não tive reação. Me contive. Me calei. Mas senti. Senti tanto! Em todos aqueles anos, guardando isso pra mim, da forma que conseguia, jamais pensei que ele pudesse estar fazendo outras vítimas. Olhava apenas pra minha dor, pro meu trauma. No dia seguinte, minhas primas haviam ido pra uma cidade vizinha que tinha uma cachoeira. Meu tio iria buscá-las, e minha tia insistiu que eu fosse com ele. Fui, e foi o único momento de toda a minha viagem em que fiquei a sós com ele. E eu sabia que ele queria falar.
Esse meu tio, é muito extrovertido, sempre foi o brincalhão, bobalhão, engraçadão (muitas piadas com conotação sexual e muitos palavrões), parceirão que todo mundo gosta! Foi do exército e era conhecido pelo sobrenome, era respeitado e adorado por todos. Primeiro, ele ficou puxando assunto, jogando conversa fora, besteira atrás de besteira, sempre foi de falar muito. Pois comecei a gravar a nossa conversa, e comecei a fazer perguntas, como que puxando assunto, guiando a conversa. Quando percebi que ele estava propenso a entrar no assunto, perguntei o que ele quis dizer com "novas alunas". E aí ele começou. Disse nomes, descreveu situações, lugares, tudo. E eu gravei tudo. Desgraçado. Guardei esse áudio comigo durante 2 anos. Depois que voltei pra casa, entrei em espiral. Não sabia o que fazer, pensava em todas as consequências, pensava na minha avó, pensava que ela morreria! Guardei o áudio na nuvem. Decidi esquecer.
Aos 21, tive uma crise muito forte, relacionado a tudo na minha vida. Minha mãe me mandou pra longe, fui parar na Paraíba. Lá pude me reerguer psicologicamente. Quando minha irmã viajou pra lá, decidi contar para ela. Ela ficou chocada, revoltada, surpresa, indignada e disse que deveríamos denunciar. Ela foi o apoio que eu precisei pra finalmente ter coragem. Fomos pra delegacia, e aquele foi o primeiro momento em que eu tive que entrar em tantos detalhes do que aconteceu comigo, há 11 anos atrás. Foi difícil. Eles não poderiam fazer nada, pois o crime não havia acontecido no estado. A denúncia deveria ser feita no estado em que o crime ocorreu. Pegamos o BO, enviamos por correio para o meu irmão que foi junto com minha tia favorita (por parte de mãe) para Minas Gerais. Eles mostraram os áudios para as famílias das meninas que haviam sido citadas no áudio por ele, e foram eles que abriram a denúncia. Eu testemunhei como informante. Ele foi preso. Minhas primas, minha tia, os amigos da família não acreditaram na denúncia. Foi um caos. Decidiram acreditar que era tudo uma armação (?) orquestrada pelo meu pai (????????????????).
Tem cinco anos que não tenho mais contato com ninguém. A ultima vez que eu falei com a minha vó, ela me tratou mal. A ultima vez que falei com minhas primas, elas me trataram mal. Meu tio jurou meu pai de morte. Disse que o mataria assim que saísse da prisão.
Hoje, descobri que minha prima mais nova já tentou suicídio diversas vezes desde que meu tio foi preso.
Sei lá. Não existe justiça.